13.8.09



DEZESSETE HAIKU
Jorge Luis Borges


1

Algo disseram
a tarde e a montanha.
Já me fugiu.

2

A vasta noite
não passa agora
de um aroma.

3

É ou não é
o sonho que esqueci
antes da aurora?

4

Calam as cordas.
A música sabia
tudo o que sinto.

5

Já não me alegram
as amendoeiras do horto.
São tua lembrança.

6

Obscuramente
livros, lâminas, chaves
seguem minha sina.
7

Desde esse dia
não movi mais as peças
no tabuleiro.

8

Deserto adentro
acontece a aurora.
Alguém já sabe.

9

A ociosa espada
sonha com suas batalhas.
Outro é meu sonho.

10

O homem morreu.
A barba ainda não sabe.
Crescem as unhas.

11

Esta é a mão
que por vezes tocava
em teus cabelos.

12

Sob o alpendre
o espelho não repete
mais do que a lua.



13

Sob essa lua
a sombra que se alonga
é uma só.

14

É um império
essa luz que se apaga
ou um pirilampo?

15

A lua nova.
Ela também a olha
de uma outra porta.

16

Longe um gorjeio.
O rouxinol não sabe
que é teu consolo.

17

A velha mão
segue inscrevendo versos
no esquecimento.

in "A Cifra"