6.6.09



O Caminho do Hokku

"Ali sentimos uma agradável leveza, oriunda da profundeza
das coisas." G. M. Hopkins

""Em nossas atarefadas vidas, perdemos a capacidade de
sentir essa leveza. As visões que então temos do mundo
assemelham-se a um velho papel de parede. Mas a leveza
continua a emanar a nossa volta, ainda que não a notemos.

Ao compormos hokku, tudo se modifica : muda a nossa
visão do mundo, e também o caminho de nossas vidas.
E isto devido à atenção que passamos a prestar à Natu-
reza, às mudanças nas estações do ano, à chuva e ao
vento, ao sol e à seca, às plantas que brotam do solo
úmido, murchando à primeira friagem do outono; atenção
à pequena aranha que tece sua teia num canto do quarto.
E atenção até para nossos pensamentos recorrentes.
Desse modo, poderemos assim encontrar essa "agradável
leveza que vem da profundeza das coisas",que sentíamos
quando crianças, e que volta, redescoberta,ao compormos
um hokku.O hokku, portanto, não é um trabalho intelectual,
nem um passatempo poético, tampouco um hobby literário.
É um aprendizado para dirigir nossa atenção além de nos-
sas idéias fixas e imagens obssessivas,e assim passar por
novas experiencias.

Não pense o hokku como uma poesia. Isso sòmente irá con-
fundi-lo, pois ele é algo bastante diferente.Veja o hokku com
uma sensação, causada por uma nova experiencia, através
de um ou mais de um de nossos cinco sentidos : num dia
quente, o jato de água fria em nossa pele ---- isto é o hokku.
Hokku não é pensar na arrebentação do mar sobre rochedos:
hokku é vê-la ao vivo, ouvi-la, senti-la em nosso corpo, respi-
rando a maresia e provando o sabor do sal nos borrifos sopra-
dos em nosso rosto...

Embora simples, o hokku é marcadamente profundo. Muito
da dificuldade em seu aprendizado está em entender essa
simplicidade, e em aprender a livrarmo-nos das complexas
interpretações que tendemos a fazer frente a algum assunto
novo.

É preciso, porém, que nós proprios nos tornemos simples.
Devemos aprender a mudar nossas propensões, deixando
as coisas falarem por sí ao invés de tentarmos falar por
elas.Para isso, o primeiro passo é desprender-nos do Ego,
e jogarmos fora todas as pré-concepções que tivermos so-
bre o hokku. Sem isso, o aprendizado torna-se tão difícil e
exaustivo como nadar em melado.

Não é possível, pois , entender o hokku sem iniciar uma
mudança em nossos modos de vida e de pensar. Devemos,
literalmente, mudar nossas mentalidades, pois o hokku não
é apenas outro gênero poético, como o soneto ou a trova .
O hokku significa um novo modo de vida.

Vivemos em um mundo cheio de estímulos, movimentado
e consumista.Para compor hokku precisamos nos afastar
desse turbilhão, e reavaliar nossos atuais valores e modos
de encarar a vida. O haicaísta não pode permanecer nesse
patamar. Ele já sabe que simplesmente pela aquisição de
bens não se alcança a felicidade ; que o mundo está em
contínua mutação, e que dentro de cem anos todos os nos-
sos conhecidos não estarão mais aqui... E, ele também, já
terá passado por esta vida. Assim nos dizem as primeiras
palavras de uma poesia japonesa, com o apropriado título de
"Alfabeto":
...............Apesar de suas maravilhosas cores,
................A flor um dia cairá...
.................Alguém, neste mundo, viverá para sempre ?

Nesses versos reside o motivo que leva o haicaista a sentir
um significado no vibrar dos juncos ao sôpro do vento, dia
após dia, e nas folhas secas que se acumulam ao pé das
ravinas. A Natureza, à medida que progredimos através do
Caminho do Hokku, passa a nos mostrar um sentido novo,
intenso, de uma imensurável profundidade.

Ao compormos hokku, é muito importante estar-se côns-
cio de tudo do que passa por nossa mente. Se ela estiver
sempre ocupada com outros pensamentos, não oferecerá
nenhuma janela para a Natureza entrar. A fim de que entre,
a mente deve afastar-se dos problemas da vida. Uma boa
idéia é experimentar-se alguma forma de meditação que,
clareando nossa mente, leve-nos a enfocar nitidamente
apenas o momento presente.

Apesar do anseio de estar-se sempre agarrado à matéria,
querendo algo, devemos aprender como evitá-lo,ou atenua-
lo, a princípio.O Dao De Jing diz que, no aprendizado coti-
diano, acumulamos experiencias as mais variadas. Mas,
no aprendizado do Caminho do Hokku, é preciso, gradual-
mente, livrarmo-nos de tudo que não seja essencial.Muito
da dificuldade para consegui-lo reside na relutancia do es-
tudante em abandonar o que ele já "sabe", despojar-se do
Ego, e desfazer-se das meras suposições que adotou co-
mo verdades absolutas. Conseguido isso, constatarão que
o Caminho ficará mais fácil, e o hokku mais simples.

Muitos iniciantes chegam com tantos conceitos arraigados
sobre o hokku que, ao primeiro contato, gosto de dizer-lhes
o seguinte :

Hokku não é nada daquilo que Você pensa que ele é !

E ele também não é aquele terceto que muita gente chama
de haiku. E também não guarda nenhuma semelhança com
os versos que chamamos Poesia.

Hokku não é o meio de alimentarmos nosso Ego, mas sim
de diminui-lo. O hokku não o ajudará a exprimir o seu Self,
mas a enfraquecer a importancia que Você dá a ele. Nós,
como estudantes,estamos sempre aprendendo algo a cada
momento. No aprendizado do Caminho, nosso objetivo não
é acumular conceitos, despojar-nos de tudo que for inútil
em nossa bagagem mental.

O antigo texto Chines "Tratado de Raízes Vegetais" diz que
quando algo que agita a água cessa, a água se acalmará
sòzinha; e que, retirada a poeira, o espelho ficará nítido e
brilhante; diz tambem que, quando algo esteja perturbando
a mente cessa de perturbá-la, a mente de novo se tornará
brilhante. Assim é no hokku . Quando encontramos certas
aderências ao Self ou muitos conceitos inúteis pipocando
em nossa mente, nós, como fazemos com um excesso de
bagagem, descartamo-nos deles.

Hokku como o que aqui descrevo embasa-se nos melhores
hokku clássicos Japoneses, com raízes no Budismo, Taois-
mo, poesia Chinesa sobre a Natureza, e, principalmente,
nas tratados sem circunlóquios, não-intelectuais, do Ch'an
e do Zen. Essas fontes da Ásia se ajustam aos alicerces
assentados nas obras de Sir Reginald Horace Blith, para
orientar o transplante do hokku ao idioma Ingles. ""
David Coomler
~ ~ ~
~ ~ ~ ~
~ ~ ~ ~ ~

Outono profundo --
No terraço empoeirado
a espreguiçadeira...

GG

(enviado por Douglas Eden à lista de Haicai do Yahoo)